Primeiramente, quero que leiam as REGRAS DE
TAREFA:
(http://cursopreparatorioparacefetmt.blogspot.com/2022/01/regras-de-tarefa-do-curso-para-novos.html) para
realizarem-na de forma correta e não deixar que sejam desclassificadas.
O Lixo
(Luís Fernando Veríssimo)
Encontram-se na área de serviço. Cada um com seu pacote
de lixo. É a primeira vez que se falam.
- Bom dia...
- Bom dia.
- A senhora é do 610.
- E o senhor do 612
- É.
- Eu ainda não lhe conhecia pessoalmente...
- Pois é...
- Desculpe a minha indiscrição, mas tenho visto o seu
lixo...
- O meu quê?
- O seu lixo.
- Ah...
- Reparei que nunca é muito. Sua família deve ser
pequena...
- Na verdade sou só eu.
- Mmmm. Notei também que o senhor usa muito comida em
lata.
- É que eu tenho que fazer minha própria comida. E como
não sei cozinhar...
- Entendo.
- A senhora também...
- Me chame de você.
- Você também perdoe a minha indiscrição, mas tenho visto
alguns restos de comida em seu lixo. Champignons, coisas assim...
- É que eu gosto muito de cozinhar. Fazer pratos
diferentes. Mas, como moro sozinha, às vezes sobra...
- A senhora... Você não tem família?
- Tenho, mas não aqui.
- No Espírito Santo.
- Como é que você sabe?
- Vejo uns envelopes no seu lixo. Do Espírito Santo.
- É. Mamãe escreve todas as semanas.
- Ela é professora?
- Isso é incrível! Como foi que você adivinhou?
- Pela letra no envelope. Achei que era letra de
professora.
- O senhor não recebe muitas cartas. A julgar pelo seu
lixo.
- Pois é...
- No outro dia tinha um envelope de telegrama amassado.
- É.
- Más notícias?
- Meu pai. Morreu.
- Sinto muito.
- Ele já estava bem velhinho. Lá no Sul. Há tempos não
nos víamos.
- Foi por isso que você recomeçou a fumar?
- Como é que você sabe?
- De um dia para o outro começaram a aparecer carteiras
de cigarro amassadas no seu lixo.
- É verdade. Mas consegui parar outra vez.
- Eu, graças a Deus, nunca fumei.
- Eu sei. Mas tenho visto uns vidrinhos de comprimido no
seu lixo...
- Tranquilizantes. Foi uma fase. Já passou.
- Você brigou com o namorado, certo?
- Isso você também descobriu no lixo?
- Primeiro o buquê de flores, com o cartãozinho, jogado
fora. Depois, muito lenço de papel.
- É, chorei bastante, mas já passou.
- Mas hoje ainda tem uns lencinhos...
- É que eu estou com um pouco de coriza.
- Ah.
- Vejo muita revista de palavras cruzadas no seu lixo.
- É. Sim. Bem. Eu fico muito em casa. Não saio muito.
Sabe como é.
- Namorada?
- Não.
- Mas há uns dias tinha uma fotografia de mulher no seu
lixo. Até bonitinha.
- Eu estava limpando umas gavetas. Coisa antiga.
- Você não rasgou a fotografia. Isso significa que, no
fundo, você quer que ela volte.
- Você já está analisando o meu lixo!
- Não posso negar que o seu lixo me interessou.
- Engraçado. Quando examinei o seu lixo, decidi que
gostaria de conhecê-la. Acho que foi a poesia.
- Não! Você viu meus poemas?
- Vi e gostei muito.
- Mas são muito ruins!
- Se você achasse eles ruins mesmo, teria rasgado. Eles
só estavam dobrados.
- Se eu soubesse que você ia ler...
- Só não fiquei com eles porque, afinal, estaria
roubando. Se bem que, não sei: o lixo da pessoa ainda é propriedade dela?
- Acho que não. Lixo é domínio público.
- Você tem razão. Através do lixo, o particular se torna
público. O que sobra da nossa vida privada se integra com a sobra dos outros. O
lixo é comunitário. É a nossa parte mais social. Será isso?
- Bom, aí você já está indo fundo demais no lixo. Acho
que...
- Ontem, no seu lixo...
- O quê?
- Me enganei, ou eram cascas de camarão?
- Acertou. Comprei uns camarões graúdos e descasquei.
- Eu adoro camarão.
- Descasquei, mas ainda não comi. Quem sabe a gente
pode...
- Jantar juntos?
- É.
- Não quero dar trabalho.
- Trabalho nenhum.
- Vai sujar a sua cozinha?
- Nada. Num instante se limpa tudo e põe os restos fora.
- No seu lixo ou no meu?
VERÍSSIMO, Luís Fernando. O analista de Bagé. RJ:
Objetiva. 2002.
01)
Sobre o texto aponte a alternativa incorreta:
a) No
início da conversa, o tratamento entre os dois interlocutores é cerimonioso;
b) Os
pronomes de tratamentos que são empregados pelas personagens são
"senhor" e "senhora";
c) Quem
tenta mudar a situação é a mulher, que pede para o vizinho tratá-la por
"você";
d) "-
Desculpe a minha indiscrição, mas tenho visto o seu lixo...", trata-se de
um pedido de desculpas sem fundamento por se tratar de uma atitude indiscreta;
e) nra
02)
O lixo de cada um dos vizinhos funcionou como um conjunto de
"pegadas" que orientaram as conclusões do outro. Relacione as pegadas
relacionadas a cada conclusão e depois marque a alternativa correta:
a) C – D –
A – B
b) D – A –
C – B
c) C – B –
D – A
d) A – C –
D – B
e) A – D –
B – C
03)
Ainda sobre o texto, aponte a alternativa correta:
a) O
buquê de flores jogado fora com o cartãozinho indicava o interesse dela pelo
presente;
b) Muito
lenço de papel indicava que ele havia chorado;
c) O
vidrinho de tranquilizantes eram índice de que a moça estava alegre;
d) A
partir de uma foto jogada no lixo, a mulher deduziu que o homem ainda gostava
da moça retratada, já que não tinha rasgado a foto;
e) No
contexto do diálogo, a mulher provavelmente completaria a frase interrompida "-
Se eu soubesse que você ia ler..." com "teria rasgado os
poemas".
04)
Qual das falas abaixo possui um duplo significado?
a) -
Primeiro o buquê de flores, com o cartãozinho, jogado fora. Depois, muito lenço
de papel.
b) - Vejo
muita revista de palavras cruzadas no seu lixo.
c) - Eu
estava limpando umas gavetas. Coisa antiga.
d) - Se
você achasse eles ruins mesmo, teria rasgado. Eles só estavam dobrados.
e) - Bom,
aí você já está indo fundo demais no lixo. Acho que...
05) Leia a seguinte estrofe do poema “Canção
do Exílio” de Gonçalves Dias:
Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar — sozinho, à noite —
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
De Primeiros cantos (1847)
Nos versos acima, do famoso poeta e
dramaturgo, podemos afirmar que aparecem pronomes:
a) possessivo e relativo.
b) relativo e indefinido.
c) de tratamento e pessoal.
d) interrogativo e demonstrativo.
e) possessivo e pessoal.