Primeiramente, quero que leiam as REGRAS DE TAREFA:
(http://cursopreparatorioparacefetmt.blogspot.com/2022/01/regras-de-tarefa-do-curso-para-novos.html)
para realizarem-na de forma correta e não deixar que sejam desclassificadas.
MOÇA DEITADA NA GRAMA
Carlos Drummond de Andrade
A moça estava deitada na grama.
Eu vi e achei lindo. Fiquei repetindo para meu deleite
pessoal: “Moça deitada na grama. Deitada na grama. Na grama”. Pois o espetáculo
me embevecia. Não é qualquer coisa que me embevece, a esta altura da vida. A
moça, o estar deitada na grama, àquela hora da tarde, enquanto os carros
passavam e cada ocupante ia ao seu compromisso, à sua alegria ou à sua
amargura, a moça e sua posição me embeveceram.
Não tinha nada de exibicionista, era a própria
descontração, o encontro do corpo com a tranquilidade, fruída em estado de
pureza. Quem quisesse reparar, reparasse; não estava ligando nem desafiando
costumes nem nada. Simplesmente deitada na grama, olhos cerrados, mãos na
testa, vestido azul, sapatos brancos, pulseira, dois anéis, elegante, composta.
De pernas, mostrava o normal. Não era imagem erótica.
Dormia?
Não. Pequenos movimentos indicavam que permanecia consciente, mas eram tão
pequenos que se percebia seu bem-estar inalterável, sua intenção de continuar
assim à sombra dos edifícios, no gramado.
Resolvi parar um pouco, encantado. Queria ver ainda por
algum tempo a escultura da moça, plantada no parque como estátua de Henry
Moore, uma estátua sem obrigação de ser imóvel. E que arfava docemente. Ah, o
arfar da moça, que lhe erguia com leveza o busto, lembrando o sangue de
circular nas artérias silenciosas, tão vivo; e tão calmo, como se também ele
quisesse descansar na grama, curtir para sempre aquele instante de felicidade.
Eis se aproxima um guarda, inclina-se, toca no ombro da
moça. De leve. Ela abre os olhos, sorri bem-disposta:
– Quer deitar também? Aproveita a tarde, tão gostosa.
Ele se mostra embaraçado, fala aos pedaços:
– Não, moça… me desculpe. É o seguinte. A senhora… quer
fazer o favor de levantar?
– Levantar por quê? Está tão bom aqui.
– A senhora não pode ficar aí assim não. Levante, estou
lhe pedindo.
– Por que hei de levantar? Minha posição é cômoda, eu
estou bem aqui. Olhe ali adiante aquele homem, ele também está deitado na
grama.
– Aquele homem é diferente, a senhora não percebe?
– Percebo que é homem, e daí? Homem pode, mulher não?
– Bom, poder ninguém pode, é proibido, mas sendo homem,
além disso mindingo…
– Ah, compreendo agora. Sendo homem e mindingo, tem
direito a deitar no gramado, mas sendo mulher, tendo profissão liberal, pagando
imposto de renda, predial, lixo, sindicato, etc., nada feito. É isso que o
senhor quer dizer?
– Deus me livre, moça. Quem sou eu para dizer uma coisa
dessas? Só que é a primeira vez, e eu tenho dez anos de serviço, que vejo uma
dona como a senhora, bem-vestida, bem-apessoada, assim espichada na grama. Com
a devida licença, achei que não ficava bem imitar os homens, os mindingos, que
a gente tem pena e deixa por aí…
– Faça de conta que eu também sou mindinga – e
a moça abriu para ele um sorriso especial.
– Para o bem da senhora, não convém se arriscar desse
jeito.
– Eu acho que não estou me arriscando nada, pois tem o
senhor aí me garantindo.
– Obrigado. Eu garanto até certo ponto, mas basta a gente
virar as costas, vem aí um elemento e furta o seu reloginho, a sua bolsa, as
suas coisas.
– Sei me defender, meu santo. Tenho o meu cursinho de
caratê.
– Tá certo, mas não deve de facilitar. A senhora se
levante, em nome da lei.
– Espere aí. Ou todos se levantam ou eu continuo deitada
em nome da lei da igualdade.
– Essa lei eu não conheço, dona. Não posso conhecer todas
as leis. Essa que a senhora fala, eu acho que não pegou.
– Mas deve pegar. É preciso que pegue, mais cedo ou mais
tarde.
– Não vai levantar?
– Não.
Ele coçou a cabeça. Agarrar a moça era violência, ela ia
reagir, juntava povo, criava caso. Afinal, não estava fazendo nada de imoral
nem subversivo. Por outro lado, não pegava bem moça deitada na grama – ele
devia ter na mente a idéia de moça vestida de gaze, aérea, meio arcanjo, nunca
deitável no chão de grama, como qualquer vagabundo fedorento.
– A senhora não devia me fazer uma coisa dessas.
– Fazer o quê?
– Me expor nesta situação.
– Eu não fiz nada, estava numa boa oriental, o
senhor chega e…
– É muito difícil lidar com mulheres, elas têm resposta
para tudo.
– Vamos fazer uma coisa. O senhor faz que não me viu, vai
andando, eu saio daqui a pouco. Só mais dez minutos, para não parecer que estou
cedendo a um ato de força.
– Pode ficar o tempo que quiser – decidiu ele. – A
senhora falou numa tal lei da igualdade, então vamos cumprir. Só que aquele
malandro ali adiante tem de se mandar urgente, eu vou lá dar um susto nele, já
gozou demais da lei da igualdade, agora chega!
01)
A frase “Não é qualquer coisa que me embevece a essa altura da vida” mostra
que:
a) O
cronista já não era jovem
b) O
cronista não tinha medo da morte
c) O
cronista teme a morte como qualquer outro ser humano
d) O
cronista compadece da situação da moça
e) nra
02)
Sobre o texto é correto afirmar que:
a) A moça
deitada na grama compõem uma cena que transmitia tranquilidade, calma e
descontração
b) A
chegada de um guarda não perturbou a tranquilidade da Moça
c) O
convite que a moça faz ao Guarda para aproveitar a tarde gostosa, a fala dela e
sua capacidade de argumentar, deixa o mais seguro de si
d) O
sinal de pontuação que revela na resposta do guarda que ele ficou encabulado, é
o ponto de exclamação
e) A moça
em momento algum se acha no direito de desobedecer ao guarda
03)
Sobre o texto é incorreto afirmar que
a) Ao
dizer que o outro além de ser homem era mendigo, o guarda contra-argumenta a
moça
b) Ao
comparar a atitude da moça quando mendigo, o guarda leva em conta a diferença
de sexo e a situação social de cada um
c) Ao
dizer “A senhora se levante em nome da lei.” o contra-argumento utilizado pela
moça é, “ou todos se levantam ou eu continuo deitada em nome da lei da
igualdade”
d) A moça
quis sair um pouco depois do guarda para não parecer que está cedendo a um ato
de força
e) nra
04)
Em qual das alternativas abaixo, o termo “moça” aparece como núcleo do sujeito?
a)
...a moça e sua posição me embeveceram.
b) – Deus
me livre, moça.
c) ...e
a moça abriu para ele um sorriso especial.
d)
Agarrar a moça era violência, ...
e) Por
outro lado, não pegava bem moça deitada na grama – ...
05)
Leia as orações abaixo e assinale a alternativa que identifica corretamente os
sujeitos:
I. Meias e sapatos
estão em promoção naquela loja.
II. Garoou muito em
São Paulo nos últimos dias.
III. Aluga-se esta
casa.
a)
sujeito composto; sujeito inexistente; sujeito indeterminado
b)
sujeito simples; sujeito composto; sujeito oculto
c)
sujeito composto; sujeito simples; sujeito indeterminado
d)
sujeito indeterminado; sujeito oculto; sujeito simples
